Morreu Laborinho Lúcio mas ficou o seu legado

Out 24, 2025 | Sem categoria | 0 comments

Dizia que os cabelos brancos lhe davam a vantagem de poder olhar para trás e perceber a importância de um bom professor como responsável, para o bem ou para o mal do sucesso de um aluno e futuro profissional bem-sucedido. Não retirou dele próprio essa assinatura de ser, em parte, fruto do que também recebeu: “quando olho para trás vejo os meus professores que fizeram de mim, para o bem e para o mal, aquilo que sou”, contou-nos na primeira vez que assumiu o papel de Presidente honorário do Global Teacher Prize Portugal.

Assumiu, nos primeiros três anos de existência daquele que é conhecido como o Prémio Nobel da Educação, o papel de Presidente Honorário do Júri e embaixador desta causa de valorizar a profissão docente destacando professores em concreto que pelo nosso país fora ajudam os jovens a tornar-se protagonistas dos seus projectos de vida. Exerceu o cargo com o seu singular charme, generosidade, sabedoria e um altruísmo exemplar. Foi uma inspiração até na forma como respondia com o maior sentido de humor e humildade face aos contratempos naturais que ocorrem num projecto que se está a criar, afirmar e a consolidar.

Mas reduzir Álvaro Laborinho Lúcio a um só papel não seria digno para o homem que percorreu 83 anos de um caminho de marcada elevação. Antigo ministro da Justiça, no Governo de Cavaco Silva, foi também Ministro da República para os Açores na Presidência de Jorge Sampaio. Homem do mundo, mas sempre orgulhoso da sua terra natal, representou-a enquanto Presidente da Câmara Municipal da Nazaré; foi Condecorado pelo Presidente da República com a Grã-Cruz da Ordem de Cristo e agraciado pelo Rei de Espanha com a Grã-Cruz da Ordem de D. Raimundo de Peñaforte, pela sua sua excelência enquanto ministro da Justiça, no âmbito da União Europeia,

Feito de um sentido de justiça maior, com tolerância e sem condenação alheia e irrefletida, a sua carreira seria marcada pelos cargos da regra, da lei isenta e dos valores legitimados.

Ao longo do seu percurso, Laborinho Lúcio exerceu diversas funções de relevo na área da Justiça: foi Procurador da República no Tribunal da Relação de Coimbra, inspetor do Ministério Público, Procurador-Geral-Adjunto da República, assim como diretor da Escola da Polícia Judiciária e do Centro de Estudos Judiciários (CEJ). Culminou a sua vasta carreira como juiz-conselheiro jubilado do Supremo Tribunal de Justiça.

Personalidade de sérios princípios isso não o tornou sisudo, nem menos empenhado nos projetos de Teatro que desenvolveu; o primeiro na Nazaré, nos seus tempos de juventude, onde participou na criação do Grupo de Teatro da cidade, ou muitos anos depois quando presidiu ao CEJ e ainda assim desenvolveu de forma lúdica momentos de role play, na escola judicial, recriando julgamentos, verdadeiras peças de um Teatro da vida real.

Pelo caminho juntou um título de Doutor Honoris Causa, em Ciências da Educação, pela Universidade do Minho.

De refinado sentido de humor, a sua reflexão desafiante sobre grandes pastas da vida política e social nunca lhe deram característica de arrogância. Legitimava o próprio conhecimento com simplicidade profunda, nada exuberante. Era bondoso diante do erro humano, traço de alguém que, mesmo sem ligação direta à Educação, foi convidado para ser o Presidente honorário do Global Teacher Prize (GTP). Assumiu sempre com a maior responsabilidade e voluntarismo o papel que lhe foi atribuído para a escolha de professores notáveis ao serviço do nosso país. “Gostei sempre mais daquele professor que diante da criança rebelde a tornava competente, sem lhe restringir minimamente a rebeldia (…). Gosto imenso daquele professor que perante a matéria não se preocupa em dá-la, mas, sobretudo, se preocupa com que os alunos a recebam”, declarou aquando a atribuição de um dos Prémios do GTP.

Olhar profundo e sábio, assim marcou várias gerações. Assim fica lembrado.

Laborinho Lúcio terminou o seu caminho, deixando tanto dele para se usar como exemplo. Morreu durante a madrugada desta quinta-feira, dia 23 de outubro.

A ele, o nosso mais respeitoso e profundo obrigado.