“ Nós somos os outros ” – o encontro dos Leaders com Catarina Furtado

Dez 15, 2025 | Leaders Gang | 0 comments

A distância e o mau tempo não as demoveram de vir até Lisboa. Nem à Catarina, que veio do Porto, ou à Carolina, que saiu logo pela manhã do Algarve; nem mesmo à Raquel, que podia dizer-se ser a mais privilegiada por este encontro ter sido em Lisboa, mas o teste de 3 horas da faculdade, depois de uma noite sem dormir, não foi mais leve para enfrentar os obstáculos e se porem todas a caminho.

Afinal não é todos os dias que se tem encontro marcado como uma líder que todos conhecem, esteja ela onde estiver.  

O mote era esse – Meet the Leaders – o momento em que nove jovens líderes, do projeto Leaders Gang, vão conhecer alguém inspirador, reconhecido e aprovado pela opinião pública e que traz consigo exemplo de vida, mensagens importantes sobre humanismo, empregabilidade e aprendizagem humana.

O ponto de encontro não é menos especial, é um café, mas não um café qualquer. Este tem corações ao alto e é coroado e transforma mulheres vulneráveis em personagens heroicas, ou não fosse a cara deste projeto um símbolo escolhido como a Embaixadora da boa vontade do Fundo das Nações Unidas para a População, desde há 25 anos. 

A Inês e a Joana falavam energeticamente, ansiosas pela chegada da tão esperada líder, mal tinham ainda percebido que ela já estava no café, em mais uma reunião para angariar fundos para a sua Fundação – Corações Com Coroa. Quando subitamente viram, por fim, e fora do ecrã, Catarina Furtado, suspenderam a conversa e o fôlego, gerando um silêncio que duraria poucos segundos, rodando o olhar e não a cabeça, percorrendo todo o campo de visão periférica possível. Seguir-se-ia a euforia da Joana que perguntava se daria para tocar na apresentadora com mais de 35 anos de carreira e que começara a ser apresentadora de televisão, precisamente, com a mesma idade destas jovens alunas de faculdade. 

Sorriso rasgado e empatia natural, afinal, a Catarina era real e tão semelhante ao que sempre viram desde pequenos: bonita, afetuosa e maternal.  

Catarina Furtado aceitou dar tempo em prol da motivação de uma geração jovem que defende com clara evidência, seriam duas horas e meia que iam passar a voar, mas que trariam profundidade e riqueza e dariam ao Vasco, à homónima Catarina e à Beatriz uma ligação especial e novo olhar para o futuro. 

“Em nenhum momento tenham medo dos vossos medos”, disse enquanto tocava no lado do coração, forrado por uma roupa de veludo beringela e mãos longas, cuidadosamente arranjadas.  

Habituada a colecionar histórias de vida, de pobreza, bravura, ou coragem, Catarina Furtado pode sentir orgulho pelos 13 anos de fundação em Portugal, pelas 58 bolsas atribuídas a jovens mulheres e por terem “erguido mais de 700 vidas”, como referiria enquanto demonstrava que a humildade é o que deve balizar a vida de alguém, mas não apagando a alegria das glórias conquistadas. “A falta de modéstia guia tantas pessoas, sabem?”, prosseguia, “mas é a humildade que nos dá o equilíbrio para seguir os dias”. 

Olhares atentos, quanto expectantes, era mais o brilho da escuta ativa que o da curiosidade descontrolada das perguntas que movia estes jovens apontados pelo Ministério da Educação, como aqueles que, por méritos diferentes, deveriam ser alguns dos selecionados para o projeto Leaders Gang. O projeto que pretende, precisamente, empoderar jovens para que também eles se tornem líderes e os principais agentes da sua própria história de vida, mesmo que o caminho nem sempre seja em linha reta. Que o diga Catarina, que partilhou o sonho de ser bailarina e que o viu destruído temporariamente por uma grave lesão, após uma inesperada e grave queda. Lesão essa que, se primeiro lhe causou dor e frustração, traria depois a abertura de novos caminhos e perspetivas, como a de ser jornalista e depois apresentadora de televisão.  Terá sido ironia do acaso, ou caminho aberto para que a intuição de Catarina lhe soprasse ao ouvido sobre as tantas janelas que iria abrir? 

Cada história que ouve permite-lhe um ponto de partida para contar algo mais que a sua experiência pode acrescentar a este grupo dos nove. Se ao Vasco pediu que se comovesse mais entre a perspetiva do lucro, com a de ajudar os grupos mais fragilizados; à Ana elogiou a generosidade de querer explorar o lado da ação social, contando a primeira história que teve quando foi ajudar a mãe num campo de férias e ficou a tomar conta do Tó que tinha trissomia 21 e alguém o chamou de “coisa”; à Raquel, que estuda Arqueologia e que a mãe acha que é má aposta no futuro, a Catarina diz “que a força vem do prazer” e que é pelo amor ao que se faz, que se movem todas as forças e adversidades, mas nunca sem valorizar o papel das mães e das mulheres que se assumem como protetoras e cuidadoras de todas as dores dos filhos e da família. Já à Carolina, e depois de lhe dar algumas técnicas para saber falar, com confiança, em público, acrescentou, “olha-te ao espelho e sente que aquilo que estás a defender é teu, tem a certeza daquilo que és, com convicção” e acrescentaria, “usa um batom”. Da Beatriz entenderia que podia dar uma excelente assistente pessoal, atenta, qual voz da consciência, completaria as frases de Catarina como se lhe desse o ponto em palco, qual peça de teatro que Catarina Furtado fez anos atrás. Com a Beatriz, talvez não acaso de ser também o nome da filha, Catarina teve a sensibilidade de explicar que por vezes “a raiva precisa de colo e só então depois de comunicação”. 

Entre despedidas, fotografias com abraços e silêncios emocionados, a Joana comprovou que Catarina Furtado é real e sensível aos outros e o Vasco encheu-se de coragem e ligou à mãe, para a apresentar a Catarina e dizer algo inesperado e talvez nunca dito antes, “amo-te”. 

Criar líderes tem por missão todos estes fatores que Catarina Furtado lhes deu. 

Deste encontro saíram jovens ainda mais conscientes e acima de tudo fortes para ter orgulho das próprias vulnerabilidades, transformando-as em motores de força. Pois retiradas todas as restantes conclusões, aquela que seria a mensagem final de Catarina é que todos “nós somos os outros”.

Corações com Coroa  

A organização Corações Com Coroa é um projeto sem fins lucrativos fundado em 2012 por Catarina Furtado. Atua como ONG de Desenvolvimento desde 2013 e dedica-se à defesa dos Direitos Humanos, com especial foco no empoderamento de raparigas e mulheres em situação de vulnerabilidade, risco ou pobreza. 

https://www.coracoescomcoroa.org/