O Gang dos Leaders voltou a crescer

Out 15, 2025 | Leaders Gang | 0 comments

Chegam por fases, mas todos na mesma sexta, dia 3 de outubro. Caras reservadas e de poucas falas, as rodas da bagagem arranham a gravilha espalhada pelo chão. Estamos em plena Serra de Aire, num campo preparado para todo o tipo de atividades, com beliches, refeitório e um espaço dinâmico que se adaptará a um plano de atividades já programado.

É como se assistíssemos a uma chegada para um treino de capacitação; só que este não é um treino de resistência física, é um ensaio mental, de crescimento individual. Será em treino sem qualquer dor, nem penalização, mas traz consciência, responsabilização e tem consequências na comunidade.

Ao fim do dia reunir-se-ão 75 jovens adultos que, juntos, vão criar mais um gangue – o Leaders Gang.  À espera está uma equipa de 10 elementos – Mentes Empreendedoras, todos devidamente fardados de verde e branco e com tudo planeado para preencher três intensos dias.

A Selecção objetiva dos Leaders

Atualmente são cerca de 400 mil os alunos do ensino secundário, desse total chegaremos a um número muito menor fornecido pelo Ministério da Educação que identifica, todos os anos, aqueles que mais se destacaram no ensino público, com base em critérios que valorizam trajetórias de superação e elevado potencial, especialmente entre aqueles com menos oportunidades.

Para serem identificados todos eles obedecem a um padrão identificado: a Trajetória de superação, pela forma como superaram as expectativas associadas ao seu contexto social e económico; o Potencial de liderança, que apresentem capacidade de inspirar, comunicar e liderar, mesmo que ainda não tenham tido acesso a redes ou experiências privilegiadas; e a potencial Mobilidade social, pretendendo garantir a igualdade de oportunidades e criar futuros líderes que possam contribuir para uma sociedade mais justa e dinâmica. Só depois de identificados e de lhes ser pedida a expressa autorização para partilhar contactos é que as Mentes Empreendedoras chegam a estes Leaders. Seguem-se centenas de telefonemas, com encontros e desencontros, propostas aceites e desmarcações inesperadas. E é depois de acederem a tudo o que lhes é proposto que se reúnem, vindos de Guimarães e até Faro os escolhidos chegam pelos seus meios e sairão de igual forma, mas ao longo da intensa jornada tudo o que viverem será assegurado e pago pelas Mentes.

Conheçam os nossos Leaders

A abrir a 4ª temporada do Leaders Gang este é o primeiro grupo a encontrar-se. O próximo grupo reunir-se-á apenas em fevereiro. Para já é o tempo de dar atenção a estes Leaders.

O André não vem sozinho da Escola de Aveiro, traz a Francisca, mas é ele que tem um apelido francês que remonta aos primórdios da Normandia. Foi o avô que trouxe o nome para Portugal e por cá a família ficou. Do francês o André diz que não percebe grande coisa, já do apelido e das raízes portuguesas está à vontade para falar.

A Valentina e a Luísa, aparentemente tímidas e desconhecidas entre si, mal chegaram assumiram grupos e jogos e não perderam tempo a ir para os matraquilhos e fazer amizades.

O Mota e o Coimbra preferem não dar o nome próprio, risonhos e bem humorados, o Coimbra fez questão de dizer que de Coimbra só tem mesmo o nome, já que nunca visitou a cidade. Quanto ao Mota deixa-nos claro, num poster pendurado na parede, que ganhou a coragem de vir porque está com o seu amigo Coimbra.

Quase ao mesmo tempo chegam as duas Dianas, uma é Anjos e já está na Faculdade de Arquitectura. 

Mas a dois há mais quem referir, as Beatrizes que, na verdade, preferem ser só Bia e não ter nomes por inteiro. Há também as gémeas de Braga que teriam de nos deixar um dia depois, porque receberam uma triste notícia que as obrigou a regressar a casa, não sem antes deixarem já algumas amizades estabelecidas. 

A Erica é de Setúbal, reservada e atenta aos outros, conta com facilidade que trabalha durante o dia e estuda das 18h às 23h. Sobram-lhe os fins de semana? Não este que veio à formação.

A ideia de juntar tantos nomes, cidades e experiências? É uma, é que regressem à escola onde estudaram, ou à da Cidade onde agora vivem e possam dar workshops e inspirar outros mais novos. Mas inspirar em quê? 

Processo de desconforto inicial para os nossos novos Leaders, a ideia é manter um compromisso com cada um, mesmo que com falhas e distrações e vontade de desistir. Ao longo de horas serão postos à prova e desafiados a rir de si próprios, a jogar, a aprender e a testar conhecimento e novas aptidões. É como um treino, uma sequência de repetições que pretende criar método e técnica e a performance de um desempenho que inspire outros e contagie os mais jovens a quererem chegar mais longe no seu futuro. Para os motivar, mobilizar, ajudar a ver novas perspetivas. O efeito modelagem pode ser um dos principais caminhos. Então, dar o exemplo passa por treinar o próprio comportamento.

 Que comecem os treinos!

Jogo do bingo. Não, aqui não se fazem apostas, nem se joga com dinheiro, mas arriscam-se contactos e é preciso chegar a novas pessoas. As perguntas são várias e os Leaders têm de descobrir quem preenche os requisitos da tabela diversificada de características pessoais descritas: “nunca atende o telefone, gosta de receber amparo, ou não gosta de chocolate, ou sabe fazer tricot”. 

Procuram freneticamente no outro interlocutor se há características que constam no papel. Cada um tem um papel com características diferentes. 

O barulho é ensurdecedor, dezenas de pessoas circulam pelo espaço, como se fossem formigas ativas em busca de um sustento para todo o inverno. Aquele que preencher mais rapidamente toda a tabela de características versus o nome de quem as tem, ganha o jogo.

Mal se conhecem, mas a timidez terá de ser ultrapassada se se querem vencer as barreiras até à vitória.

Ensaio após ensaio, novo jogo chega sem qualquer esmorecimento de energia.

Nada como um speed dating para conhecermos que o Tomás, se fosse uma figura pública, seria o MC Tommy, ou que se pudessem criar feriados seria o dia do Garfield e nesse dia teríamos todos de cozinhar lasanha. Percebemos ainda que todos identificam em si tantos talentos quanto defeitos, mas que dão maior destaque aos bons atributos, apesar de não os saberem enunciar tão claramente.

A tarde foi preenchida e as atividades acabaram já a tarde terminara no céu. Agora que já se conhecem melhor, trocam-se grupos, mantêm-se jogos e aumenta a troca de conversas. Faltam poucos minutos para o jantar e a energia parece ter aumentado mais do que quando chegaram. Sedentos de descanso, de jantar e de recuperar curiosidades que foram aguçadas nas primeiras dinâmicas, a noite de sexta para sábado promete grandes revelações de personalidade, entre jovens que regressam aos matraquilhos já de pijama e casacos mais quentes para enfrentar o denso nevoeiro da serra.

Sábado. Não falharam as horas. Pedido que foi começarem às 09hh00, todos se apresentaram no tempo antes que lhes permitiu engolir taças de leite com cereais.

Vem aí um teatro dinâmico, para pôr todos a mexer. A Mafalda e a Maria são as Mentoras que conduzem este momento. Dão as indicações com um ânimo de quem dormiu 24 genuínas horas, algo que não é verdade, porque entre a preparação do dia seguinte, organização de materiais e últimos banhos, a noite já avançou e o sono esqueceu de vir.

Saber rir de si próprio, com o inesperado e num improviso, é técnica que se treina e faz perder alguma falta de humildade que pode ser característica de quem quer mostrar o seu melhor lado.

O André diz que é um boi e a Vera uma galinha. Falta de auto estima? De todo. A esta quinta humana vão juntar-se ovelhas e uma delas será mesmo xoné, mas ninguém se ofende.

A Maria esclarece que todos têm o seu papel, contudo fazem parte de um todo onde há compromissos e ninguém caminha só.

Rir não é o único método de trabalho. Dividida em quatro grandes blocos, a grande sala da quinta vai acolher todas as dinâmicas em espaço fechado. A chuva e nevoeiro vieram para ficar e é bom que se acostumem que, pelo menos na serra, o outono veio para ficar.

Os grupos são separados pela sala e os temas também. Em cada espaço um grande bloco a ensaiar:  a Gestão de conflitos; o Design thinking; o Feedback e a Comunicação vão ser os temas deste dia.

“Ninguém é um paracetamol”, diz a Mentora Mafalda, que explica que não sabemos à partida como vamos impactar o outro quando queremos criar interação. O que fazer, o que se podia ter feito, ou que não se deverá nunca tentar, são caminhos vários que vão ser colocados para que estes jovens se saibam posicionar face a grandes temas da agenda nacional e quando estiverem em sala de aula.

Os jovens Leaders estão sensíveis às temáticas e à gestão dos comportamentos e empenham-se num papel que poderiam até nem saber ao certo qual seria, mas chegados aqui, agora não querem desmobilizar.

Com dinâmicas várias vão aprender a desenvolver técnicas para trabalhar o empreendedorismo social.

Que problemas sociais vão encontrar? Vários. Mas saberão lidar com questões que envolvam o bullying, racismo, xenofobia, pobreza, violência, ou outras questões sociais?

Uma das técnicas novas é o desenho dos problemas e através de uma árvore desenvolver os ramos e arestas a trabalhar. Visualizar e projetar é muito relevante. Aqui, o mundo pode ser utópico e, como tal, podem imaginar-se cenários vários. E se assim é, não se deixam desenhos em mãos alheias, afinal a Diana tem o domínio do traço para desenhar tudo aquilo que lhes passe pelo pensamento.

Há momentos que pedem reflexão e saber ouvir, mais do que agir no imediato.

Continuamos em treino e desse medo não há deslizes com o tempo. As atividades são cronometradas e os grupos rodam com a agilidade de ponteiros de um afinado relógio.

Ao longo dos exercícios quebram-se os cenários perfeitos e impõem-se ventos que pretendem abanar a estrutura sólida até aqui trabalhada.  Talvez os Leaders não esperem que depois de um elogio, venha a crítica. Como reagir a isso? Aqui vão aprender técnicas e conselhos, alguns com nomes e fórmulas estudados; outros onde a experiência já apontou caminhos.

O Tomás é a próximo a testar qualidades próprias em mais uma dinâmica. Escondido, guia os outros apenas através das palavras. É preciso saber fazer um chapéu de papel, mas sem que o vejam. Dá instruções e só no fim vê o efeito final. Confrontado com o resultado, poucos são os que fizeram o que ele queria. Terá explicado mal os passos? Ou o público não sabe entender as mensagens? A técnica é essa, entender que a mesma comunicação pode ter impactos diferentes e que a mesma pessoa pode ou não resultar mediante o seu recetor.

Gostos para todos os destinos profissionais, perfis vários, neste grupo sabemos que algo todos têm em comum, são maiores de idade e vêm principalmente da zona centro e norte de Portugal. Vestem ideais e vontades e erguem algo de si, através das camisolas dos cursos superiores que frequentam: Direito, Arquitetura, Engenharia, ou Psicologia são apenas mais uma forma de percebermos melhor quem são.

A equipa Mentes Empreendedoras

As equipas completam-se. Nas duplas aqui constituídas, os Mentores mais seniores recebem os novos que integraram a equipa há poucas semanas. As técnicas enriquecem-se e complementam-se, cada um aporta uma experiência e transporta-a para o palco que agora é de todos. O arrojo de quem chega traz à experiência de quem já está a pureza de ver sempre com olhos novos aquilo que não pode ser um cenário viciado.

Ninguém aqui foi escolhido ao acaso, o perfil de cada elemento da equipa foi pensado a rigor para que as pessoas se respeitem, sem excesso de imposições ou brilho, sabendo ouvir, mas ser assertivo. Não há estatutos, nem hierarquização, apenas a vontade profissional de empoderar os mais jovens.

O que espera os nossos novos Leaders.

A noite foi propícia a terminar tarde, afinou-se a guitarra e, depois dos combates entre mesas de matraquilhos, um grupo de resistentes juntou-se entre karaoke e coreografias; o Sr Vítor, responsável pela Quinta, alinhou-se com o momento cultural e acudiu aos mais noctívagos, oferecendo uma ceia de bolachas e leite.

Na última manhã e depois de distribuídos pelos vários Mentores das Mentes, os novos Leaders treinaram as técnicas aprendidas em trabalhos finais.

Menos resistentes às horas passadas e às noites mal dormidas, alguns foram cedendo ao cansaço, aparecendo apenas a meio da manhã, ou adormecendo nos intervalos enquanto esperavam no sofá. 

Mas uma coisa é certa, novos Leaders nasceram e estão a formar vontade. 

Saberão eles sobreviver ao imprevisto? Saberão eles gerir a adversidade?

O Mentor Nuno testou o pulso da audiência na última manhã, “Então, chegou o tempo que vos demos para esta última prova?”. Em coro ouviu-se a talvez esperada resposta, “não!”. 

Mas o tempo agora terminou e a primeira formação acabou.

Seguir-se-ão novos encontros e mentorias de um a um, onde se acompanharão todos estes ainda aprendizes, mas potenciais grandes Leaders. Mas todos já entenderam que os dias de um leader são sempre assim, com guião feito e ensaio programado, mas muitas vezes com um caminho imprevisível e inesperado. Tal como é a vida. A vida que todos quiseram abraçar e melhorar.

Acabaram de nascer novos Leaders. Até breve gangue!